InfânciaSílvia Alves com 10 meses - 1948

Olha. O poema das idades se diverte e soa...
Ó jardim de outro tempo, lamparina perfumada...

Léon-Paul Fargue
Poèmes, 1912, pg 76
Gaston Bachelard, A Poética do Devaneio, pg 136

Nasci em São Paulo, Brasil, dia 2 de maio de 1947.
Meus avós por parte de pai tinham origem bem brasileira e portuguesa e, os por parte de mãe vieram do norte da Itália e Áustria, Bassano de Grappa e Bolzano.
Acredito que 70% do que somos herdamos de nossos ancestrais, sendo por isso que, o que fazemos hoje, modificado pelo que somos e pelo que vivemos, recebe muita influência do que no passado foram e viveram aqueles que formam nossa família de sangue.
Se buscarmos a memória de nossa infância, encontraremos uma plenitude de poesia em lembranças guardadas no cofre carinhoso do tempo, nos cheiros voláteis de uma aurora mais que presente, pois é vivente.
Na mais remota de minhas lembranças, vejo-me bem pequena, indo com as tias maternas visitar e "ajudar" na fábrica de perfumes de meu avô Olivo, agora não mais chamada Ferraro, mas Noris, nome trocado por ocasião e devido à segunda grande guerra mundial.
Lá, eu passava algumas tardes de inesquecível poesia, pois aqueles vidros em que eu colocava tampinhas e colava rótulos, continham substâncias perfumadas de variadas essências vindas da Europa, perfumes deliciosos criados por meu avó. Em cima dos balcões iam enfileirando-se aqueles frascos charmosos, cada um contendo um mistério de cor e cheiro, cada um personalizado de encanto, aroma e nome diferente.
Era muito bom receber como prêmio pelo trabalho os perfumes que eu quisesse. Voltava como tinha ido, de bonde, mal esperando chegar para usar aquelas delícias.
O sonho se estendia quando no final do ano, no dia da exposição dos trabalhos da escola, minha mãe levava para presentear as professoras, um vidro grande de perfume para cada uma: Flor de Maçã e de jasmim, de violeta, de lavanda, de...
Foi depois de muito tempo que percebi quanto tudo isso havia me influenciado e, tão profundamente, que me vi na década de 80 criando meus perfumes... Foram 8 anos de tentativas desesperadas para um aroma que parecesse interessante...até deixar de lado, guardadas, as criações entre os meus perfumes franceses preferidos.
Só em janeiro deste ano de 2002, quando resolvi criar os sabonetes artísticos, provei minhas criações. Ficaram mais de 10 anos esquecidas e fechadas no escuro. Surpresa: estavam excelentes, de bom nível e qualidade, mesmo com meu olfato, modéstia à parte, exigente!

Sonhada e meditada, meditada na intimidade mesma do devaneio solitário, a infância adquire a tonalidade de um poema filosófico. ... Aliás, porque existir já que sonhamos? Onde começa a vida, na vida que não sonha ou na vida que sonha? Onde foi a primeira vez? , pergunta-se o sonhador. Na lembrança tudo é claro - mas, e no devaneio que se liga à lembrança? Parece que esse devaneio vem ricochetear no insondável. A infância se constitui por fragmentos no tempo de um passado indefinido, feixe mal feito de começos vagos...
Assim, basta a palavra de um poeta, a imagem nova, mas arquetipicamente verdade, para reencontrarmos os universos da infância. Sem infância não há verdadeira cosmicidade. Sem canto cósmico não há poesia. O poeta redesperta em nós a cosmicidade da infância.

Gaston Bachelard, A poética do Devaneio, Pgs. 120, 121 Martins Fontes, S. P., 1996